Depois de Astana, os olhos voltam-se para Idlib

A análise de Cemil Dogaç Ipek, doutorado em Relações Internacionais pela Universidade Ataturk.

Depois de Astana, os olhos voltam-se para Idlib

Idlib foi o tema principal das negociações de Astana de 15 de setembro. Esta semana, vamos analisar a situação atual e os prováveis desenvolvimentos em Idlib.

A cooperação com o objetivo de desescalar o conflito sírio ficou um pouco melhor clarificada durante as negociações de Astana, que se realizaram no dia 15 de setembro. Na realidade, as zonas de arrefecimento do conflito são compostas por 4 regiões na Síria. No entanto, Idlib foi o ponto principal das conversações de Astana, no dia 15 de setembro. Quando comparamos Idlib com as outras regiões, verificamos que Idlib é onde estão mais grupos diferentes e que o equilíbrio entre estes grupos é muito sensível. É por este motivo que o processo de arrefecimento do conflito implica ele próprio o risco de se gerarem novos conflitos.

No final do encontro de Astana, a Turquia, a Rússia e o Irão, chegaram a um acordo sobre as fronteiras da zona de arrefecimento em Idlib, e também sobre quem é que vai fazer a proteção destas fronteiras. Segundo a imprensa, 500 soldados de cada país serão estacionados nos pontos de controlo que irão ser criados na linha de arrefecimento do conflito. Estas tropas terão a missão de controlar o cessar fogo. Contudo, esta iniciativa poderá não ser suficiente para lutar apenas contra a Hayat Tahrir al-Cham (HTC). Na realidade, a primeira etapa não consiste numa luta direta contra este grupo. De momento, o plano passa por instalar a HTC fora das fronteiras da zona de arrefecimento do conflito e por controla-la.

A Rússia, a Turquia e o Irão têm por objetivo garantir a segurança na zona de arrefecimento em Idlib e na sua região envolvente. Esta situação implica sérios riscos do ponto de vista da Turquia. Isto porque a HTC é muito poderosa numa parte da região para onde serão enviados soldados turcos, com a missão de coordenar a zona de arrefecimento do conflito. Na realidade, o Exército Livre Sírio (ELS) espera desde há muito tempo que a Turquia entre na região, para reforçar a sua presença nesta zona.

Este é o motivo pelo qual é altamente provável que possam surgir confrontos entre o Exército Livre Sírio e a HTC, ainda antes do envio dos soldados turcos para a região. Essa situação colocaria os soldados turcos em conflito com a HTC. Os preparativos militares das forças no terreno confirmam esta probabilidade.

A Turquia aplica uma estratégia composta por várias etapas na luta contra os grupos radicais em Idlib. A primeira etapa desta estratégia consiste em garantir o enfraquecimento da HTC, a organização aglutinadora sob a liderança da Frente Al Nusra. Neste contexto, foram feitos esforços para que certos grupos se separem da HTC. E de facto, graças aos grandes esforços da Turquia, alguns grupos já começaram a deixar a HTC.

A segunda etapa da estratégia turca para Idlib, passa por unir e reforçar a oposição moderada. Neste contexto, tentamos reunir sob uma organização aglutinadora os grupos do Exército Livre Sírio que estão espalhados por Idlib. Com o apoio da Turquia, as forças do Exército Livre Sírio em Idlib conseguiram em grande parte ser reunidas. Esta nova estrutura, será provavelmente mais um apoio para equilibrar a luta contra a HTC, mais do que um reforço da oposição contra o regime de Damasco.

Os principais objetivos do processo de Astana são:

1. Dissociar claramente os grupos armados radicais dos grupos moderados na Síria;

2. Eliminar os radicais;

3. Garantir desde o começo um cessar fogo entre o regime e os grupos moderados, e encontrar em seguida uma solução política.

Idlib é uma das zonas mais problemáticas para a aplicação deste plano. Isto porque Idlib é o maior território controlado apenas pela oposição e nesta zona o grupo mais forte da oposição é a Frente Al Nusra. Face a esta situação, certos grupos armados em Idlib fazem agora parte do processo de Astana.

Em consequência deste cenário, não é possível lançar uma operação sobre toda a região de Idlib. Isto porque é preciso desde logo garantir uma separação entre os grupos radicais e moderados. Se a Turquia não tomar a iniciativa, a sua influência e até mesmo o controlo de Idlib, poderão passar para as mãos de potências estrangeiras ou de atores que poderão representar uma ameaça contra a Turquia. É por este motivo que se torna imperativo que a Turquia tome iniciativas de antecipação em Idlib.

Durante o processo de que se avizinha, a Turquia poderá ver-se envolvida num conflito profundo em Idlib. Os confrontos nesta região podem prolongar-se durante muito mais tempo do que durante a operação Escudo do Eufrates, por causa das condições geográficas e sazonais. Por esta razão, o envio do exército turco para Idlib poderá tornar-se numa fonte de conflito para o qual a Turquia será arrastada.

A operação que prevê uma redução da intensidade do conflito em Idlib, poderá colocar a Turquia face a uma nova crise em redor da sua fronteira. Se a Turquia conseguir garantir um sucesso militar ao assumir o risco de entrar numa zona de combate, poderá criar uma zona de segurança semelhante àquela que foi criada na sequência da operação Escudo do Eufrates. Neste cenário, a Turquia poderia uma vez mais reforçar a sua posição na região no complexo dossiê sírio. Em consequência, a Turquia terá a oportunidade de reduzir ao mínimo os riscos com origem em Idlib. Adicionalmente, esta situação poderia também reforçar a mão da Turquia no que diz respeito às suas obrigações decorrentes da sua cooperação com a Rússia e com o Irão, na luta contra a organização PKK/YPG.

A primeira probabilidade que nos ocorre neste contexto, é a região de Afrin onde a Rússia tem uma presença militar. Não ficaremos surpreendidos se depois de Idlib, a Turquia possa lançar uma nova operação contra Afrin, controlada por outra organização terrorista, o grupo terrorista PKK/YPG.



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