A ameaça do DAESH, desde o Médio Oriente até à Ásia Central (estudo)

O estudo de Cemil Dogaç Ipek, doutorado em Relações Internacionais pela Universidade Ataturk.

A ameaça do DAESH, desde o Médio Oriente até à Ásia Central (estudo)

Os atentados terroristas levados a cabo pelo DAESH em 2 017, constituíram uma das principais questões da agenda da Turquia, do Médio Oriente e da Eurásia. Atualmente, o DAESH representa não apenas uma ameaça importante para o Médio Oriente, mas também para a Ásia Central. No programa desta semana, vamos analisar esta questão com o foco posto na região da Ásia Central.

O atentado terrorista levado a cabo pelo DAESH no famoso Club Reina na noite de ano novo, logo às primeiras horas de 2 017, matou 39 pessoas e fez com que os olhares se virassem também para a Eurásia, para além do Médio Oriente. Hoje em dia, o DAESH está ainda presente tanto no Médio Oriente como na Ásia Central, e esta presença é estudada ao nível das suas causas e consequências. Desta vez, é preciso colocar uma nova pergunta: Será que o DAESH se está a deslocar do Médio Oriente para a Ásia Central?

Apesar dos terroristas do DAESH formarem uma estrutura muito complexa do ponto de vista étnico, os debates sobre este grupo normalmente focam-se nos povos de origem turca. Nestes debates, alguns defendem que a Ásia Central é a nova base e o novo centro do DAESH. Será isto verdade? Vamos tentar esclarecer os nossos ouvintes a este respeito.

O DAESH levou a cabo centenas de atentados terroristas até ao momento atual. No entanto, a origem étnica e a nacionalidade dos terroristas que executam estes atentados, são cada vez mais mencionados nas notícias nos últimos tempos. Por que é que isto acontece? Antes de respondermos a esta questão, iremos analisar dois estudos que identificam os terroristas do DAESH segundo o seu país de origem.

Quantos combatentes estrangeiros combatem nas fileiras do DAESH? Eis os números publicados em março de 2 016:

Tunísia

6 500

Arábia Saudita

2 500

Rússia

2 400

Jordânia

2 250

Turquia

2 100

França

1 700

Marrocos

1 350

Líbano

900

Egito

800

Alemanha

760

(Fonte: jornal britâncio The Telegraph, no artigo “Iraque e Síria: quantos combatentes estrangeiros combatem pelo DAESH?”)

 

Segundo os resultados de uma pesquisa publicada em 2 015, eis o número de pessoas que se juntou ao DAESH, por cada milhão de habitantes em cada país:

Jordânia

315

Tunísia

280

Arábia Saudita

107

Bósnia Herzegovina

92

Kosovo

83

Turquemenistão

72

Albânia

46

Bélgica

46

Uzbequistão

33

Suécia

32

Palestina

28

Dinamarca

27

Tajiquistão

24

França

18

Áustria

17

Holanda

15

Finlândia

13

Rússia

12

Cazaquistão

8

Turquia

6

Quirguistão

5

(Fonte: Radio Free Europe/Radio Liberty, Foreign Fighters In Iraq & Syria: Where do they come from?)

 

Existem numerosos estudos feitos sobre esta questão. Foram publicadas também outras estatísticas na internet. Qualquer pessoa que queira ter acesso a estes dados, apenas terá que fazer uma simples pesquisa na internet.

Existe um grande número de estudos feitos acerca deste tema.

Tomámos estes dois como exemplo, mas não temos dados definitivos acerca desta questão. Contudo, podemos ter uma ideia geral com base nestes estudos que já foram feitos.

Quando estudamos estes dados, constatamos que existem militantes do DAESH oriundos da Ásia Central, mas sobretudo que eles vêm de todas as partes do mundo. O recrutamento de membros do DAESH nos países da Ásia Central, bem como em países da Europa e dos Balcãs como a Bósnia e o Kosovo, é mais reduzido do que nos países do Médio Oriente e Norte de África. Mas entre a opinião pública regional e internacional, fala-se regularmente dos terroristas do DAESH com origem na Ásia Central.

As principais causas desta situação são as seguintes: Certos regimes da região da Ásia Central, garantem a sua legitimidade sobretudo com base no discurso acerca do islamismo radical e no medo do terrorismo. Esta propaganda fortalece os regimes em questão. De todas as formas, estes regimes estão à cabeça dos que difundem esta propaganda.

Na sequência dos ataques do 11 de setembro nos Estados Unidos, a República Popular da China passou informações sobre a questão Uigure, referindo-se ao islão radical e à Al Qaeda, bem como a presença do DAESH. No entanto, a China nunca tinha associado os uigures com o islão radical antes do 11 de setembro. Mas esta propaganda beneficiou a China e fez com que outros países a apoiassem.

A Rússia adotou também este conceito e usa-o com frequência, pois isto permiti-lhe reforçar o seu papel de país que garante a segurança na Ásia Central e legitima as suas políticas dirigidas a esta região.

Os peritos que na verdade não conhecem bem a região da Ásia Central, aceitam sem hesitar esta propaganda e contribuem para a sua divulgação. Há também grupos que apoiam esta propaganda com fins políticos e ideológicos. Vemos isto sobretudo na Turquia. Os grupos que se sentem incomodados pela política externa multilateral e independente da Turquia, bem como a sua aproximação à Ásia Central, são particularmente apoiantes desta propaganda.

Em resumo, e para responder à questão “Será o DAESH uma ameaça para a região da Ásia Central?”, a resposta é sim. Mas respondendo à questão “Será a ameaça do DAESH na Ásia Central assim tão grande como está a ser representada na opinião pública turca e mundial?”, a nossa resposta é “não”.

As personalidades turco-islâmicas sufis, hanafitas e maturides, têm nas suas mãos o papel mais importante na luta contra o DAESH na Ásia Central. A fotografia que o presidente da República da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tirou diante do mausoléu do Imam Maturidi – durante a sua visita de estado ao Uzbequistão – transmite uma importante mensagem neste sentido.



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