Da utopia à distopia

A Análise da Atualidade, um programa de Erdal Simsek.

Da utopia à distopia

Eu aprendi acerca do conceito de utopia pela primeira através da enciclopédia da biblioteca que tínhamos em casa, quando estava ainda nos primeiros anos do liceu. Este conceito foi para mim muito interessante, e fez com que eu começasse à procura de obras sobre este tema, como “O Estado” de Platão, a “Nova Atlântida” de Bacon, a “Utopia” de More e a “Cidade do Sol” de Campanella. Na altura, os adultos da minha família disseram-me que “tu não és capaz de compreender esses assuntos, lê antes coisas mais adequadas à tua idade”, como que a proibirem-me de ler estes livros. Esta atitude teve em mim o efeito contrário e eu li em segredo o “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, um livro que estava na secção de Ficção Científica da biblioteca. O tema era de facto para além da minha compreensão.

Com uma paixão impulsionada pelo sentimento de derrota contra o livro, eu voltei a ler o livro durante os meus últimos anos no liceu e desta vez percebi que o livro já estava ao alcance da minha compreensão.

Com o passar do tempo, eu tornei-me um ávido leitor de ficção científica. Dei por mim na última paragem das novelas de ficção científica, a Utopia Negra, também conhecida como Distopia.

Um mundo frio, negro e arrepiante espera por nós em todas as utopias ocidentais. Segundo a Distopia, a relação entre produção e consumo, as formas crescentes de acumulação de capital, os desenvolvimentos tecnológicos e o ego humano, dizem-nos que o mundo do futuro é simplesmente demasiado negro para se viver.

Um mundo negro é apresentado nas utopias e distopias de nomes de culto da ficção científica, como Aldous Huxley e George Orwell. Segundo esta utopia, existe um ataque constante que vem do exterior. Mesmo quando não há ataque nenhum, está seguramente um ataque a ser preparado. Para ultrapassar esta situação, é preciso controlar o mundo à nossa volta e estabelecer a nossa ordem.

De D. Quixote a Robinson Crusoe, todos eles queriam criar um mundo sobre o qual tivessem um domínio pessoal. Por exemplo, Robinson Crusoe quer criar um mundo do qual ele é o arquiteto. Nesta perspetiva, ele quer criar uma utopia totalitária, como acontece noutras utopias. A criação deste mundo numa ilha, assume um caráter defensivo contra ameaças vindas do exterior, para dessa forma consolidar o seu poder.

A utopia do Fausto de Marlowe, converte-se numa distopia que conduz à sua destruição. O Fausto de Goethe também procura assumir a mesma soberania.

A utopia do Oriente é a oposta da do Ocidente. Enquanto que os heróis do Ocidente tentam existir do lado de fora, as pessoas no Oriente olham para si próprias, de forma totalmente oposta. As pessoas no Oriente tentam tornar-se parte da vida existente, fazendo autocrítica. Enquanto que as pessoas e os estados no Ocidente olham sempre para o erros que vêm de fora e para aqueles que não fazem parte deles. Por este motivo, ideias que desrespeitam as pessoas como os crimes de ódio, a marginalização, o racismo, o nazismo, o fascismo e o comunismo, nasceram todas no Ocidente.

Em conclusão, existe uma ânsia pelo “poder” e pela “soberania” na raiz da utopia e da distopia ocidental.

No islão, também não existem este tipo de pensamentos brutais. Apesar de haver em parte planos sociais nas obras de Alfarabius, Avempace, Averroes e até de Ibn al-Nafis, eles são discutidos na perspetiva do autocontrolo pessoal de cada um e da sua continência. Isto é particularmente claro em Avempace, Ibn Arabi e Sadr al-Din al-Qunawi, que de certo modo também se tornaram nas fundações da filosofia islâmica, ao darem uma direção diferente a este desenvolvimento.

Por que é que eu fiz esta comparação? Quando olhamos para o mundo ocidental, podemos ver que cobre sempre o mundo de sangue, pelo medo que tem da sua existência e por causa da ânsia por soberania. A ânsia por ganhos extremos e por soberania, está novamente a mobilizar os centros de poder do Ocidente. A Europa do norte e os Balcãs tornaram-se literalmente em depósitos de armas e munições nos últimos dois anos.

Os Estados Unidos enviam os seus enormes navios de guerra, aviões e veículos para todo o mundo. Atualmente, todo o mundo do Japão até à Europa do norte, tornou-se num barril de pólvora. E estes países, que são em muitos casos amigos e aliados, ficam por vezes em silêncio em relação a estes desenvolvimentos e às vezes até convidam à sua concretização. Como se não tivessem vivido uma guerra destrutiva há apenas 60 anos. Isto seria uma desvantagem para todo o mundo, e não apenas para estes nossos aliados.

Basta olhar para o Médio Oriente. Esta região tornou-se num banho de sangue desde a Declaração de Balfour. O Médio Oriente é apenas uma pequena região no mundo, mas tornou-se virtualmente numa zona de vingança para os nossos aliados do Ocidente, ao longo dos últimos 100 anos.

Tomemos a pequena região do Golfo Pérsico, por exemplo. Todos os dias surge ali uma nova tensão política pela mão de outros. Mais uma vez, nós sofremos a maior parte destas tensões e conflitos. De facto, parte-nos o coração, a nós muçulmanos, ver as tensões, as lágrimas e o sangue, seja em que região do mundo for e não apenas na zona do Golfo Pérsico. Isto porque nós acreditamos que todas as pessoas no mundo vêm do nosso pai, o Profeta Adão, e de Eva, a nossa mãe. Do coyboy americano ao trabalhador fabril na Alemanha, do pescador japonês ao pastor de camelos no deserto, todos eles são nossos irmãos e irmãs.

Com esta crença, temos que convencer aqueles entre nós que acreditam nesta distopia e na sua fonte de inspiração, o Ocidente, de que somos irmãos. Se nós, os Orientais, e em particular aqueles que cresceram de acordo com os valores e a cultura islâmica, não pararmos aqueles que transformam o mundo numa bola de fogo com a ânsia por soberania e poder, o mundo irá novamente transformar-se num banho de sangue.

Deixamos aqui um pedido para as elites políticas do mundo Ocidental:

Temos que impedir os sentimentos obscuros dentro de nós de se tornarem maiores com os sussurros corruptivos de Mefisto, e temos que impedi-los de nos dominarem a nós e ao nosso mundo. De outra forma, não apenas nós, mas também o futuro das gerações futuras, ficará prisioneiro desta escuridão.

Acreditem em mim quando digo que o mundo chega para toda a humanidade até ao fim dos dias.



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