A guerra civil no Iémen causou a mais grave crise humanitária dos últimos anos

A análise de Cemil Dogaç Ipek, doutorado em Relações Internacionais e docente na Universidade Ataturk.

A guerra civil no Iémen causou a mais grave crise humanitária dos últimos anos

A guerra civil no Iémen, que eclodiu em setembro de 2 014 depois dos ataques contra o governo por parte dos rebeldes hutis apoiados pelo Irão, continua há já 3 anos e deu origem à mais grave crise humanitária dos últimos anos. O governo legítimo do Iémen e o chefe de estado Mansur Hadi, foram forçados a refugiar-se na Arábia Saudita e a recorrer à luta armada.

Com efeito, a luta armada do movimento huti que havia sido suspensa durante muitos anos no Iémen, pode ser considerada como um reflexo da guerra que também continua na Síria. Contra os hutis xiitas apoiados pelo Irão, a Arábia Saudita – que defende o governo legítimo do Iémen – lançou um processo de intervenção militar contra o avanço do expansionismo xiita. A crise no Iémen rapidamente assumiu o caráter de uma crise regional, depois dos estados árabes do Golfo Pérsico e até mesmo outros países como o Egito, o Sudão, o Paquistão e Marrocos, terem dado o seu apoio à operação do regime saudita. Para as forças da coligação árabe que estão na defensiva no país, e para a Arábia Saudita em particular, a guerra no Iémen é apresentada como uma resistência face ao expansionismo de caráter confessional.

O conflito no Iémen não se limita aos atores que acabámos de mencionar. A Al Qaeda também está presente e é influente no Iémen. Os militantes do DAESH, bem como as tribos sunitas, também combatem os rebeldes huti. No entanto, a resistência da coligação árabe e das forças locais, não foi capaz de impedir os grupos apoiados pelo Irão de controlar uma boa parte do país.

Existe uma reação percetível contra a intervenção do Irão por parte do conjunto dos países do mundo, devido aos acontecimentos que se vivem no Iémen. A ONU e vários países, continuam a reconhecer o governo de Hadi como sendo o governo legítimo do país.

Os esforços de mediação feitos pela ONU até ao começo de 2 017, no sentido de ser acordada uma trégua, não deram resultados. E por isso, a guerra continua sem que haja quaisquer negociações entre as partes em conflito.

Nas últimas semanas, os ataques com mísseis contra Riade a partir das regiões controladas pelos hutis no Iémen, não tiveram maiores consequências pois os mísseis foram destruídos pelo sistema de defesa antiaérea da Arábia Saudita. Esta situação mostra quão dura se tornou a guerra travada por terceiros entre a Arábia Saudita e o Irão.

As análises feitas acerca desta questão, concluem que o Irão irá usar o conflito no Iémen como um trampolim para exportar esta guerra para o interior da Arábia Saudita, em particular nas regiões habitadas por populações xiitas nesse país. Esta situação revela o facto do Irão usar a luta intraconfessional como uma forma de ajuste de contas na região.

Em contrapartida, os ataques aéreos levados a cabo no Iémen por parte das forças da coligação liderada pela Arábia Saudita, são considerados como o principal elemento que agrava a crise humanitária que grassa no país. Mas por outro lado, há também toda uma população iemenita a ser afetada pelo conflito. Do total de 27 milhões de habitantes do Iémen, há 17 milhões que precisam urgentemente de receber ajuda humanitária. Os portos de Aden e de al-Hudaydah – os principais pontos de abastecimento do país – deixaram de funcionar, o que deu origem a uma crise alimentar, em cima das doenças e epidemias que já se viviam no Iémen.

A vida quotidiana e os serviços públicos estão num ponto de rutura e deixaram de funcionar em quase todo o país. A epidemia de cólera que começou em abril de 2 017, já chegava a mais de 90% do território iemenita em outubro. Já foram identificados um total de cerca de 1 milhão de casos de cólera, que já tirou a vida a 3 mil pessoas que não conseguiram resistir a esta doença.

O total colapso da infraestrutura do país, o fim dos serviços médicos, a falta de acesso a água potável e a falta de comida, são as principais razões por detrás das epidemias e das doenças. Cada vez mais, nenhuma organização internacional, e nomeadamente as Nações Unidas e as organizações de ajuda humanitária, pode atua no país devido à guerra que graça no Iémen. Mas uma das exceções é a campanha “Seja uma fonte de esperança”, lançada no passado mês de julho pela Turquia. Iniciada por ordem do presidente Recep Tayyip Erdogan, a ajuda humanitária e de material médico no valor de 20 milhões de dólares, enviou para o Iémen 120 toneladas de materiais recolhidos com a contribuição de entidades oficiais e de benfeitores, incluindo o Ministério da Saúde da Turquia, a Agência de Gestão de Emergências e Catástrofes (AFAD) e também Crescente Vermelho Turco. Todos estas entidades contribuíram para o envio de materiais e ajuda ao Ministério da Saúde do Iémen.

A mão de ajuda da Turquia tem uma importância vital no Iémen, onde atualmente há muito poucas organizações ativas. Adicionalmente, cerca de 200 doentes iemenitas estão a ser tratados em hospitais da Turquia, desde o final de 2 016.

A luta cruel que se trava no Iémen entre os países da região, traz obviamente prejuízos à população civil. Os massacres e o exílio tornaram-se normais no Iémen, onde se acumular um sofrimento que não poderá ser esquecido durante várias gerações.

Até onde o Irão e a Arábia Saudita estão dispostos a ir, para continuar a sua luta armada cada vez mais disseminada por toda a região do Médio Oriente, é uma questão que se reveste de grande importância, em particular para o povo do Iémen.



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