O mundo muçulmano adotou uma posição comum contra a decisão de Trump

A análise de Cemil Dogaç Ipek sobre a decisão americana de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.

O mundo muçulmano adotou uma posição comum contra a decisão de Trump

Apesar de alguns países o terem feito de forma involuntária, o mundo muçulmano adotou uma posição comum contra a decisão de Trump a 16 de dezembro de 2 017, durante a cimeira extraordinária da Organização para a Cooperação Islâmica, que teve lugar em Istambul por iniciativa da Turquia.

De facto, era a previsão mais esperada: depois de anos a apoiar as pressões e as injustiças do ocupante israelita contra os palestinianos, o novo presidente americano fez a sua jogada de azar e tem poucas hipóteses de ganhar. Tal como aconteceu no caso do referendo de Barzani. Mas esta “bomba atómica” que Trump fez explodir sobre o Médio Oriente, acabou por ter um efeito boomerang e prejudicou Israel.

Apesar de alguns países o terem feito de forma involuntária, o mundo muçulmano adotou uma posição comum contra a decisão de Trump a 16 de dezembro de 2 017, durante a cimeira extraordinária da Organização para a Cooperação Islâmica, que teve lugar em Istambul por iniciativa da Turquia. Esta cimeira deu os primeiros sinais do fim da paralisia que se abateu sobre estes países desde há dois séculos. Estas decisões têm uma grande importância, muito para além de Jerusalém. O mundo muçulmano expressou, pela primeira vez, a sua vontade de refazer o objeto de um tema histórico, contra o duo composto pelos Estados Unidos e Israel. O que é essencial nesta questão, foi o ultrapassar da barreira psicológica e da mitologia segundo a qual os muçulmanos não são capazes de se unir, nem de fazer face aos Estados Unidos e a Israel.

Foi um raio de esperança para o mundo muçulmano e para todo o mundo, ver que estas decisões surgiram num momento em que os sistemas de países muçulmanos como o Iraque, a Síria, o Iémen ou a Líbia, se estão a desintegrar. Este é um momento em que os países muçulmanos se estão a matar mutuamente por questões étnicas e religiosas, em que organizações terroristas como o DAESH massacram muçulmanos de forma inumana, em que a “Primavera Árabe” dos países do Golfo Pérsico se transformou no “Verão do Irão”, um momento em que os países muçulmanos estão paralisados pelo medo da Irmandade Muçulmana, em que a administração de Sissi no Egito já nem tem força para levantar um dedo, e em que o governo saudita se lançou numa “lavagem de roupa de casa” numa atmosfera de caos. Ou seja, o mundo muçulmano está atualmente nas piores condições que se possam imaginar.

Mas apesar de tudo, nenhum líder legítimo ou ilegítimo de um país árabe, soube explicar ao seu povo as consequências de deixar Jerusalém sob o domínio de Israel (como tentou fazer Melik Kamil durante a Idade Média). Neste contexto, os líderes árabes devem saber como Melik Kamil – que foi um homem de estado que conquistou inúmeras vitórias, e que foi também sobrinho do comandante mais destacado do Oriente, Salahaddin Ayyubi, o responsável pela reconquista de Jerusalém aos Cruzados em 1 187, 88 anos depois da perda da cidade – foi insultado pelo povo muçulmano e como o seu nome ficou manchado na história depois do acordo de transferência de Jerusalém para os Cruzados, para poder a ganhar a luta pelo poder contra os seus irmãos. Isto porque a transferência de Jerusalém para os Cruzados, por decisão de Melik Kamil, deixou profundamente triste o mundo muçulmano, e em particular Bagdade, o Cairo e Damasco. Quando esta transferência se efetuou, foram pela primeira vez na história organizadas manifestações e Melik Kamil foi considerado maldito. E é por este motivo que nenhum país árabe foi capaz de levar a cabo uma segunda vaga de Primaveras Árabes, e de pôr fim aos regimes que já estão fragilizados.

Este levantamento do mundo muçulmano por iniciativa da Turquia, tornou-se numa revolta global na Assembleia Geral das Nações Unidas, apesar de todas as ameaças feitas pelos Estados Unidos e por Israel. É preciso notar que os países que lutaram contra a resolução apresentada pela Turquia, são países com os quais nunca falámos. E os países que se abstiveram, são países como as Bahamas, o Benim, o Botão, Antígua, a Guiné Equatorial, o Ruanda, as Ilhas Salomão e o Vanuatu, países que têm os Estados Unidos como mecenas. Por isso, a decisão americana sobre Jerusalém e os comportamentos de Israel foram condenados pela consciência comum que reagrupou os grandes países do mundo, e que representam uma grande parte da população mundial. Os Estados Unidos e Israel ficaram portanto isolados, apesar de toda a sua força. Esta foi também, ao mesmo tempo, uma bela resposta que mostra que o dinheiro não é tudo, contra as ameaças mafiosas do presidente americano que disse “nós vamos estar atentos a quem votar SIM”, fazendo uma ameaça explícita ao corte das ajudas americanas.

Trump, um homem de negócios de Nova Iorque rico e orgulhoso de si mesmo, parece não saber reconhecer o Médio Oriente e o mundo muçulmano, tendo em conta o conteúdo dos seus tweets. Ele parece também não ter calculado bem as complicações geradas pelo punhal que espetou no coração do mundo muçulmano, em Jerusalém. Adicionalmente, o urso selvagem à solta numa loja de porcelana de um mercado árabe no centro do Médio Oriente, destruiu a loja mas acabou por ficar ferido pelas louças partidas.

As decisões tomadas durante a cimeira de Istambul da Organização para a Cooperação Islâmica e pela Assembleia Geral da ONU, parecem ter feito respirar o mundo que sofre desde há muitos anos por causa da hegemonia americana. Podemos constatar o fim da invasão neo-mongol no Médio Oriente e compreender que a velha ordem mundial já não pode mais ser mantida.

A tocha da liberdade contra a hegemonia americana, parece finalmente ter sido acendida. Vamos por isso esperar para ver o que nos reservam os próximos dias.



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