Agrava-se a luta na política interna do Equador

A Aliança País, que está no poder desde 2 008, tem na realidade uma base de esquerda e o partido realizou muitas transformações no país sob a liderança de Rafael Correa. Mas agora está num momento crucial. A análise de Mehmet Ozkan.

Agrava-se a luta na política interna do Equador

Talvez esteja a ser abalado o único país ainda com uma esquerda forte na América Latina. A crise política começou a agravar-se depois das eleições ganhas por Lenin Moreno, que assumiu o posto de vice-presidente durante 6 anos durante o mandato do ex-presidente Rafael Correa, e é agora presidente desde a primavera de 2 017. Apenas 3 meses após o começo do mandato de Rafael Correa, passou a assumir todos os poderes e responsabilidade do então vice-presidente Jorge Glas, que foi destituído do seu cargo devido a acusações de corrupção. Mas esta situação não se ficou por aqui, e agravou-se a crise entre Lenin Moreno e Glas, que tem uma relação mais próxima com o ex-presidente Rafael Correa.

No dia 4 de fevereiro de 2 018, irá ter lugar no Equador um referendo para determinar se o ex-presidente será ou não novamente eleito. Esta votação é uma oferta de Lenin Moreno a Correa, que espera novamente ser outra vez candidato. Mas por que surgiu esta crise entre antigos companheiros?

A Aliança País, que está no poder desde 2 008, tem na realidade uma base de esquerda e o partido realizou muitas transformações no país sob a liderança de Rafael Correa. Mas agora está num momento crucial. Correa e Glas – que tem uma relação sincera com Correa e com outros responsáveis do partido – na verdade não queria que Lenin Moreno se candidatasse. Mas Moreno, um homem condenado a usar uma cadeira de rodas devido a um ataque, está à frente nas sondagens. Por isso, a Aliança País não teve outra opção senão escolher Moreno como candidato. Depois das eleições, começaram as interrogações sobre as ações da sucursal da Oderbrecht no Equador, uma empresa brasileira que ganhou concursos públicos por todo o continente. Quando este processo se alargou também ao vice-presidente Jorge Glas, o presidente Lenin Moreno adotou uma postura severa e clara contra a corrupção. Enquanto todos os poderes de esquerda no continente eram condenados por alegações de corrupção, o Equador aplicou uma política de pedir contas perante o povo e inspecionou o passado.

Moreno, cuja postura é muito firme e clara, teve a oposição de Correa e da sua equipa. Correa disse que o assunto já tinha sido investigado e que não era preciso voltar a fazê-lo. Mas Moreno considerou serem muito sérias as alegações sobre as atividades da Oderbrecht no Equador, e alega que o poder daquela altura deve ser ilibado das acusações. A retirada dos poderes de Glas aconteceu nesta altura, sendo que Glas é considerado como sendo o homem de Correa na administração.

Mas há outros motivos por detrás da crise. Moreno tem uma postura mais concordante e diferente da de Correa em política. Moreno realizou conversações com todos os partidos políticos da oposição sobre os problemas e os efeitos da crise económica. Moreno quer abrir o país parcialmente ao Ocidente, por contraponto a Correa, que quer manter o país sob a influência da China em particular, e fora do alcance ocidental. Moreno é um político que procura o equilíbrio entre o ocidente e o oriente na sua política. Este tipo de abordagem é considerada por Correa como a venda da revolução, que olha para Moreno e a sua equipa como traidores da revolução.

Rafael Correa, que foi viver para a Bélgica depois de cumprir o seu mandato, queria dirigir o país à distância mas esta última crise mostrou que isso não será fácil. Correa, terá ainda que esperar mais algum tempo até se poder candidatar novamente, depois de dois mandatos consecutivos à frente do governo, e quer regressar novamente à presidência em 2 021. Mas a crise com Moreno mostra que estes 4 anos não serão fáceis.

O aprofundar da crise acabou com a dissolução da Aliança País, o partido no poder. E as pessoas próximas de Correa abandonaram o partido que fundaram.

Atualmente, e enquanto Rafael Correa faz esforços para a vitória do “Não” na campanha para o referendo, Lenin Moreno apoia o “Sim”. Um processo semelhante já tinha acontecido na Colômbia. O presidente Álvaro Uribe da Colômbia entre 2 002 e 2 010, viu o seu sucessor - o ministro da Defesa Juan Manuel Santos que foi eleito em 2 010 – sair do partido do poder e criar um novo, tendo depois seguido uma política diferente.

Até agora, as relações entre sucessores e ex-presidentes no continente não foram pacíficas, ao contrário do que se passou na Rússia entre Medvedev e Putin. O duo composto por Lula e Rousseff no Brasil, não resultou pois Dilma não tem o carisma de Lula. E na Colômbia, como já dissemos, o partido do poder dividiu-se e passou a estar na oposição. Na Venezuela, apesar do sucessor de Chávez, Nicolás Maduro estar ainda no poder, nunca conseguiu chegar ao patamar de Chávez e o seu governo não é bom.

O Equador é o país que usa de forma mais razoável as suas receitas do petróleo quando os preços são muito altos, apesar da sua população de 16 milhões de pessoas. O Equador é o país da América Latina onde a política de esquerda teve mais êxito. Com a sua infraestrutura de educação, saúde e outras, o país usou muito bem os seus recursos. Apesar de enfrentar atualmente uma crise económica, já não é o clássico país pobre da América Latina.

O futuro dos desacordos que se agravam a cada dia que passa entre o ex-presidente Correa e o atual presidente Moreno, não só determinarão o futuro do poder de esquerda, mas irão também definir a linha de rumo do poder esquerdista mais bem sucedido.

O Equador é um país que foi polarizado e dividido por uma faca, e caso o partido do poder se divida, será inevitável a instabilidade no país.

Esta foi a análise do Doutor Associado Mehmet Ozkan, académico da Academia de Polícia e Coordenador para a América Latina da Agência Turca de Cooperação e Coordenação (TIKA)



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