Porque é que o processo eleitoral já não é polarizador?

A Turquia irá em breve ter eleições presidenciais e parlamentares.

Porque é que o processo eleitoral já não é polarizador?

Os candidatos e partidos políticos continuam a grande ritmo as suas campanhas eleitorais, para as eleições presidenciais e parlamentares. Estas serão as primeiras eleições presidenciais na história da Turquia, e verifica-se uma moderação nunca antes vista. Quase não existem afirmações duras, extremistas e polarizadoras, como é hábito nas campanhas eleitorais. O que está pode detrás desta situação?

 

A obrigação de uma política tolerante para obter 50% + 1 dos votos

Em comparação com as eleições anteriores, em que foi possível chegar ao poder com apenas 20% dos votos, agora será preciso alcançar 50% + 1 dos votos. O Partido da Justiça e Desenvolvimento (Partido AK), fez sozinho o mais difícil e liderou a implementação da lei que obriga a que o presidente seja eleito por uma maioria absoluta. Agora, já não é possível aos partidos terem políticas apenas para consolidarem as suas bases. Os candidatos têm que obter os votos de amplas camadas da sociedade e dirigir-se a novas massas eleitorais.

A necessidade de alcançar 50% + 1 dos votos, força os partidos a procurar novos portos e a abandonarem políticas unilaterais, dirigidas apenas aos seus eleitores. Os partidos têm agora que evitar afirmações extremistas e o isolamento das pessoas. Quando se considera a dificuldade em governar a Turquia, este é um desenvolvimento positivo graças ao sistema eleitoral.

 

A possibilidade de segunda volta

Apesar das sondagens mostrarem que as eleições presidenciais se vão resolver na primeira volta, os partidos e candidatos da oposição fazem todos os possíveis para que haja uma segunda eleição presidencial. Teoricamente, a possibilidade de uma segunda volta obriga os candidatos a terem uma linguagem mais cuidada. Os partidos da oposição tentam obter votos de outros partidos, e em particular votos do Partido AK, por não conseguirem chegar aos 50% + 1. Isto contribui para a moderação nas afirmações e expressões.

Em caso de haver uma segunda volta, os partidos terão que usar uma linguagem suave, para poderem conseguir obter votos de outros partidos, nomeadamente através da criação de alianças.

 

Os eleitores podem apresentar-se diretamente como candidatos

Nas eleições presidenciais anteriores, apenas os grupos parlamentares ou deputados podiam ser eleitos como presidente. Esta situação continha o risco da vontade dos eleitores não ser devidamente refletida nas urnas. Era uma situação deficiente em termos democráticos e das liberdades. Mas este problema foi resolvido com o novo sistema. Agora, qualquer pessoa pode ser candidato presidencial, recolhendo 100 mil assinaturas. Este novo sistema permite aos pequenos partidos e grupos marginais fazerem parte do sistema, e suaviza o seu discurso. Agora, todos têm direito a apresentar os seus candidatos e já não podem culpar o sistema.

 

As alianças pre-eleitorais

Agora é permitida a criação de alianças pre-eleitorais, e por isso estas eleições serão discutidas em grande medida entre a Aliança do Povo e a Aliança da Nação. A participação dos partidos políticos em alianças, suaviza as tensões políticas. Antigamente, as coligações eram feitas após as eleições, depois de um processo eleitoral duro. Mas agora o tom das afirmações é suavizado devido às alianças.

O facto das alianças serem criadas antes das eleições, é uma oportunidade para testar a coligação antes das eleições. As alianças oferecem também aos partidos mais pequenos a capacidade de estarem representados no parlamento, ultrapassando assim a barreira mínima dos 10%. O aumento da representação política no parlamento reduz as tensões políticas no processo eleitoral.

 

A recusa das identidades políticas eliminatórias

Durante este processo eleitoral, quase não houve debates sobre laicismo, contemporaneidade e kemalismo, que fazem sempre parte da agenda dos partidos de esquerda. E não seria lógico dizer que estes temas de repente deixaram de ser importantes para estes partidos. O motivo desta mudança é o sistema eleitoral. As identidades eliminatórias não permitem obter 50% + 1 dos votos, e por isso estes partidos têm que rever as políticas que seguem há 10 anos. A necessidade de políticas para amplas massas da sociedade é positiva para a Turquia, pois obriga os partidos a estarem em contacto com toda a sociedade.

 

O isolamento das ramificações terroristas

Outro elemento importante no processo eleitoral é o facto de nenhum partido se ter aliado ao HDP, que ainda não se distanciou dos grupos terroristas. Esta pressão pública é um desenvolvimento positivo, pelo facto da democracia funcionar com as suas próprias regras. Os partidos políticos participam nas eleições enquanto organizações civis e democráticas, e não podem saudar o terrorismo nem receber ordens de terroristas não eleitos.

 

O crescente populismo

A necessidade de receber apoio de amplas camadas da sociedade, fez aumentar o populismo durante o processo eleitoral. Os partidos da oposição focam-se em destruir em vez de produzirem. Esta situação decorre do facto da Turquia ser agora um país de 10 mil dólares e não precisar de esmolas. No entanto, todas as despesas populistas são pagas com o dinheiro dos impostos. A subida dos impostos faz contrair o mercado e área civil, e reduz a produção. O custo de prometer tudo a toda a gente é a falta de produtividade.

 

A nova política: correr atrás do possível e não do contrário

Numa situação em que a Turquia enfrenta riscos muitos graves na sua região, é vital para o futuro do país que a política seja unificadora e não eliminativa. É preciso que a política seja corretiva e não polarizadora ao nível interno, e que sejam adotadas políticas que deem importância a amplas camadas da sociedade, com uma política identitária. E parece que o sistema governamental presidencialista atual, irá conseguir atingir estes objetivos. Os candidatos e os partidos devem correr atrás do possível e não do contrário, para conseguirem mais votos de amplas faixas da sociedade.

No final de contas, a política é a “arte do possível”.



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