As relações internacionais da América Latina

No começo da década de 1 990, o argentino Carlos Escude introduziu uma fórmula de política externa para os países da América Latina, classificada de realismo ambiental. A análise de Mehmet Ozkan, académico da Academia de Polícia e coordenador da TIKA.

As relações internacionais da América Latina

A Atualidade da América Latina / Capítulo 25

As relações internacionais da América Latina, tal como ocorre de vez em quando na nossa região, são um tema que se discute normalmente sob uma abordagem regional. Apesar de não ser um tema que influencie o Ocidente de forma próxima, a política externa da América Latina pode dar origem a teorias de nível médio, com base em conceitos e resultados das dinâmicas locais.

A política externa da América Latina foi um dos temas mais discutidos no continente durante a guerra fria, e em particular na questão do desenvolvimento económico do estado. Durante este período, em que predominou a abordagem do desenvolvimento em todo o mundo, a América Latina foi o palco de ação de ditaduras militares e de movimentos de esquerda. Os intelectuais que seguiam o pensamento de esquerda, criaram a teoria da dependência nos anos 60. De acordo com esta teoria, o Ocidente criou uma realidade de dependência política e económica para o continente. Se o objetivo era desenvolver um país, então deveria ser fortalecida a sua autonomia e reduzir ao mínimo a sua dependência.

De acordo com esta abordagem, o aumento da dependência era também visto como a causa para a falta de desenvolvimento económico. Esta discussão sobre a autonomia e a dependência, acabou por ser a forma mais comum de analisar a situação na América Latina, até ao final da década de 1 980. E o que ficou dessas discussões até aos nossos dias? O que significa para nós o património de esforços para criar teorias sobre a América Latina?

No começo da década de 1 990, o argentino Carlos Escude introduziu uma fórmula de política externa para os países da América Latina, classificada de realismo ambiental. Esta teoria não teve eco na zona mais a norte da América Latina, mas teve grande influência na região mais a sul do continente. A abordagem de Escude, que foi consultor de Carlos Menem - o presidente da Argentina naquela altura - olhava para a realidade de uma forma renovada, com uma abordagem de estado comercial ou "trading state". Esta teoria começou a ganhar raizes na década de 1 970.

Independentemente das polémicas sobre dependência e autonomia, o realismo ambiental tentava encaixar internacionalmente, de forma parcial, cada um dos países. A teoria sobre a dependência, estava limitada à relação do estado com o exterior. O realismo considerava também os interesses do estado acima de tudo, e mantinha-se afastado das áreas de conflito global.

Segundo a teoria do realismo ambiental, a questão mais importante para um estado deveria ser a prosperidade dos seus próprios cidadãos. Quando se olha em detalhe para esta abordagem, verificamos que não oferece nada mais do que o desempenho do papel de bom cidadão, no sistema internacional.

Quando chegámos aos anos 2 000, tanto a América Latina como esta teoria se transformaram. Desapareceram as condições da guerra fria e também começaram a soprar de todos os lados os ventos populistas e de esquerda. Este vento, com mais ou menos força, trouxe novamente para a discussão as questões da dependência e as teorias da forte oposição do Ocidente, das décadas de 1 960 e 1 970. Mas aquilo de que se estava realmente à procura, era da autonomia do estado. O conceito de encaixe internacional parcial dos estados, defendido por Escude, foi deixado de lado. E pelo contrário, aumentou a procura por uma política externa autónoma, que permitisse aos países assumir posições isoladas. Naturalmente, esta abordagem abriu a porta a polémicas, que foram aproveitadas pelos ventos de esquerda, como contraponto do aprofundar da globalização, que todos os dias fortalece a procura por autonomia, apesar do mundo ser bastante diferente do que era nos anos 60.

Falar atualmente de autonomia, já não significa ter menos relações com o exterior, mas sim ter relações externas com base em condições de igualdade e justiça. Desta forma, a América Latina teve grandes experiências mas continuam as suas discussões para criar novas teorias.

No ano passado, realizou-se em Bogotá o 5º congresso ordinário da Rede de Relações Internacionais da Colômbia, a REDINTERCOL, que serve de fórum de discussão. Neste congresso, participaram pela primeira vez académicos turcos. Na realidade, as discussões durante estes congressos são muito semelhantes às discussões que ocorrem na Turquia. São avançadas teorias com base em estudos comparativos, que de maior ou menor forma, foram concebidos com base na política externa.

A experiência dos académicos do continente, e em particular da área das relações internacionais e que trabalham em política externa, é muito semelhante à de muitos académicos turcos. O resultado que saiu desta reunião pode ser resumido numa pergunta: "Porque é que agora surgem menos teorias?". Na realidade, a maior parte dos académicos ainda pensa em formas de centralizar o estado e a nação nas relações internacionais.

Uma abordagem às relações internacionais que coloque o estado e a nação no centro, não consegue ir mais além das políticas e das relações externas. Uma das abordagens mais radicais oferecidas neste encontro, foi o deixar para trás destes conceitos, e o convite aos académicos para que olhem mais para as situações internacionais. Mas é claro que isto não é fácil. Antes de mais, é preciso mudar a educação para haver mudança nos resultados na educação atual, e para que possam ser superadas as barreiras impostas pelos idiomas.

Aquilo que os intelectuais estão a colocar em cima da mesa, são teorias locais sobre o continente. Ficaram para trás as abordagens globais aos desenvolvimentos locais. Os académicos que trabalham sobre as relações internacionais na Turquia, querem observar a experiência da América Latina. Eles podem observar de muito perto a influência transformadora e de mudança da política de esquerda. Há questões iguais no aspeto de encontrar uma alternativa ao islamismo no Médio Oriente, e à política de esquerda na América Latina. Mas não foi possível criar uma só ligação entre estas duas experiências até agora. E não podemos esperar este contacto da esquerda latina, porque esta esquerda é a vítima (exceto no caso da Palestina) do Ocidente na questão do islamismo e do Médio Oriente. Os académicos na Turquia poderão aprender muito com a América Latina, se fizerem uma abordagem comparativa nas suas investigações.

Esta foi a opinião do Doutor Associado Mehmet Ozkan, membro do corpo académico da Academia de Polícia e coordenador para a América Latina da Agência Turca de Cooperação e Coordenação (TIKA)



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