“O colapso ou justiça universal”

A ordem criada depois da II Guerra Mundial não é uma ordem de paz e prosperidade, que faça esquecer as guerras. A análise do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Yildirim Beyazit em Ancara.

“O colapso ou justiça universal”

Perspetiva Global 44

O século XX foi o século em que a humanidade sofreu mais violência. No século XX tiveram lugar as duas guerras mais sangrentas da história e as bombas atómicas destruíram não apenas as pessoas, mas também todas as espécies de animais nos locais onde foram detonadas.

A ordem criada depois da II Guerra Mundial não é uma ordem de paz e prosperidade, que faça esquecer as guerras. É a ordem dos vencedores, que protegem a sua atual posição. O sistema de Bretton Woods tornou-se a expressão máxima do sistema monetário internacional e fez com que o dolar passasse a ser a principal moeda do mundo. Este sistema foi concebido para eternizar a ordem criada pelos vencedores na ordem das Nações Unidas.

Tanto o sistema de Bretton Woods como a ordem das Nações Unidas, que funcionaram relativamente bem durante o período da Guerra Fria, estão agora em estado decrépito. De facto, está a mudar a repartição de poderes globais entre os Estados Unidos, a Rússia, o Reino Unido, a França e a China, que são os 5 países membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que forma ele próprio uma coligação.

Os atores globais tentam manter a ordem atual, com coligações ou diferentes combinações globais, mesmo depois do mundo bipolar ter deixado de existir. Observámos juntos como se formaram ou como não foi possível formar coligações globais, que não se basearam na justiça. Tanto no Iraque, como no Afeganistão, na Bósnia, na Crimeia, na Síria e em Arakan.

Na ordem global, que é um prolongamento da época da Guerra Fria, aumenta a cada dia que passa o número de críticas a este sistema, tendo em conta que agora tudo é mais visível e conhecido devido à globalização. Neste contexto, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, sublinha em todas as ocasiões que o mundo é maior que os 5 maiores países nas Nações Unidas.

A comunicação e a informática a nível global, dão a conhecer diariamente o custo da sustentabilidade das sociedades introvertidas e de todas as incertezas. Não se pode manter a ordem da Guerra Fria numa situação global em que facilmente se acede a toda a informação e em que é possível observar as injustiças.

Hoje em dia, vivemos numa época em que se tornou incerta a “antiga situação”. Neste ponto, deparamo-nos com uma situação em que a “ordem antiga é impossível, mas em que a nova ordem representa um colapso”. O custo de manter a situação antiga aumenta a cada dia que passa. Mas os atores globais têm armas químicas e bombas de hidrogénio, que são capazes de destruir não apenas a espécie humana, mas também todas as espécies de animais. Atualmente, vivemos num contexto de lideranças políticas desequilibradas, ou seja, o futuro de todo o mundo está em perigo e corre riscos.

Num ambiente em que está a ser posta em causa a ordem da Guerra Fria, mas em que ainda não foi possível criar uma nova ordem, devemos desfazer-nos das armas que ameaçam toda a humanidade, para que não enfrentemos uma nova ameaça de destruição. Têm também que ser criadas coligações de justiça universal em todas as áreas, para que a ordem do pós Guerra Fria possa conduzir à paz e à prosperidade, já que tanto a justiça como a injustiça são contagiosas.

A procura pela justiça universal não deve ser considerada apenas ao nível dos estados. Num período em que o mundo está à procura do seu futuro, devemos esforçar-nos para que haja coligações de justiça universal a todos os níveis. Os académicos, o mundo dos negócios, as organizações setoriais, os sindicatos, as ordens de advogados, as instituições de pensamento estratégico, as organizações não governamentais, os clubes desportivos, o mundo da arte e da literatura e também as comunidades estudantis, podem ser uma peça de ligação no caminho das coligações pela justiça universal. Neste sentido, em primeiro lugar devem começar por aumentar as suas atividades de colaboração, para depois fazerem ouvir juntamente a sua voz.

No passado, durante o período da Guerra Fria, não foram possíveis as diferentes procuras por este objetivo, tendo em conta que os meios de comunicação da Guerra Fria não permitiam o pluralismo. As tecnologias de informação e a informática sempre em constante desenvolvimento, permitem uma crescente mobilidade humana e tornam possível a colaboração entre pessoas de diferentes países. Quando somos estudantes, temos agora outros estudantes internacionais em todo o lado com os quais podemos comunicar. Se somos empresários, temos seguramente relações a nível global. Devemos sempre procurar a justiça universal em todas as áreas.

No entanto, não é possível obter resultados globais se mantivermos uma postura nacional, perante uma ameaça global muito próxima e em ebulição. Seja qual for a nossa crença ou ideologia, não importa que sejamos muçulmanos, cristãos, judeus, ateus ou budistas. Devemos proteger juntos o nosso futuro dentro das coligações de justiça universal, tendo em conta a dimensão do risco com que nos enfrentamos. E esta situação já se pode observar ocasionalmente.

A atitude comum de todos os países do Conselho de Segurança das Nações Unidas, contra a decisão unilateral dos Estados Unidos sobre Jerusalém, bem como a reação mundial contra o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, dão-nos esperança de que é possível uma atitude comum da humanidade.

Da mesma forma, será possível criar coligações de justiça universal com base em temas específicos. A cooperação contra as decisões sobre Jerusalém, Arakan, a Síria, os direitos humanos, a islamofobia e a discriminação, bem como a atitude comum contra o neonazismo, o fascismo, as armas químicas e os monopólios globais, podem ser alguns destes temas.

Devemos apontar as injustiças universais a todos os níveis e pedir justiça universal. Se não conseguirmos impôr a supremacia do discurso a nível global, independentemente da nossa religião, idioma, raca, crença ou ideologia, o colapso será inevitável pois é impossível que apenas o estado ou uma única parte da comunidade consigam parar sozinhos os ataques globais.

Hoje em dia, vivemos numa época em que ainda não foi possível criar uma nova ordem global. O mundo vive por isso quase num limbo. Temos a oportunidade de criar uma ordem mundial mais justa. Devemos fazer o nosso máximo esforço a par de toda a humanidade, para percorrer todos os caminhos. Caso contrário, amanhã surgirá uma nova ordem mundial que não será baseada na justiça e que manterá os erros do passado. Ou podemos deparar-nos com um cenário em que um dos atores globais lança uma bomba para destruir a humanidade, e aí já será demasiado tarde.

Esta foi a opinião sobre este assunto do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Yildirim Beyazit em Ancara



Notícias relacionadas