O islão europeu?

A humanidade de diferentes identidades, culturas, religiões e idiomas, começou a conviver mais com os processos de globalização. A análise do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Yildirim Beyazit em Ancara.

O islão europeu?

Perspetiva Global 45

O islão europeu é intensamente discutido na Europa desde há algum tempo. Apesar do debate ser principalmente dirigido aos muçulmanos, as componentes gerais do tema são os estados e as instituições de segurança europeias, bem como os académicos e escritores ocidentais.

Na sua essência, este debate não se justifica. A humanidade de diferentes identidades, culturas, religiões e idiomas, começou a conviver mais com os processos de globalização. Esta convivência já era conhecida por países como o estado otomano, mas trata-se de uma situação nova para o Ocidente.

Nos últimos séculos, a relação dos países ocidentais com os países de diferentes religiões e culturas foi de exploração, e podemos dizer que os países ocidentais se enfrentam com as diferenças da emigração destas pessoas no Ocidente. A época atual, é ao mesmo tempo uma época de estados-nação modernos centralistas, mas em que a convivência com a diferença se torna mais difícil.

Uma cultura europeia compatível com o islão

Se as pessoas com diferentes histórias, religiões e culturas atualmente convivem mais, naturalmente também os estados, instituições e intelectuais têm que abordar os resultados desta situação.

Esta situação é bastante compreensível, se o objetivo do islão europeu for avançar com as práticas compatíveis com o islão dentro da Europa, em vez das diferentes práticas islâmicas fora da Europa. Se o objetivo for explicar o islão europeu como sendo, em certa medida, um subsidiário de áreas como o idioma, a cultura e o método, o islão já contempla esta situação. Neste contexto, o islão na Turquia e os entendimentos e práticas islâmicas no Extremo Oriente, nos Balcãs e no Médio Oriente, apresentam diferenças entre si em certa medida, apesar da sua essência ser a mesma. Neste quadro, é uma situação absolutamente compreensível que os muçulmanos europeus façam destacar a cultura europeia compatível com o islão, em vez de adotarem as práticas islâmicas dos países de onde vieram.

Tal como não seria de esperar receber bem na Turquia ou noutro qualquer país a vida quotidiana, as práticas, os elementos culturais e folclóricos ou o entendimento literário e artístico em África, no Médio Oriente ou Extremo Oriente, também se deve compreender que o mesmo não se deve fazer na Europa.

Não ser bem-vindo não é uma questão destes elementos culturais serem incorretos, mas sim de ser consciente de que cada sociedade tem os seus próprios elementos culturais em função da sua geografia. Àparte desta cultura comum, que é propriedade de cada contexto e de cada região, as diferentes culturas podem fazer um esforço para manter viva a sua cultura numa sociedade aberta e civilizada. Uma cultura europeia compatível com o islão não é apenas uma questão da Europa. Quando falamos de uma cultura europeia compatível com o islão, estamos a falar da necessidade de excluir os elementos como o racismo, o fascismo e o nazismo que existem na genética cultural da Europa.

O ênfase no islão europeu, também se usa em alguns casos para dizer àqueles que vêm para a Europa, que não têm valores universais como a igualdade, a liberdade, os direitos humanos, o pluralismo e a convivência. No entanto, podemos também dizer que os europeus se afastaram destes valores nos últimos tempos. Uma abordagem que diferencia os imigrantes e as pessoas, as forças contra a imigração e a islamofobia em crescimento, são os primeiros temas que nos vêm à mente. Nas sondagens de opinião pública, aumentou a percentagem de pessoas que não querem estar rodeadas de outros diferentes de si.

O foco num islão europeu seguro, mas não libertário

Olhando para o que está escrito e para as práticas dos estados ocidentais, o debate sobre o islão europeu não parece ser um debate civil, cultural e de valores. Os estados europeus estão a abordar esta questão mais pela via da segurança. Por este motivo, os estudos sobre o tema estão a ser feitos acima de tudo pelas forças de segurança, num contexto securitário em vez de cultural, assente na convivência, pluralismo e diversidade. Havendo um problema de segurança, naturalmente têm que ser tomadas medidas de segurança. Isto nem oferece discussão. Mas abordar os problemas civis, sociais, culturais e políticos que afetam milhões de pessoas, apenas na perspetiva da segurança, aprofunda estes problemas.

É altamente compreensível e necessário que os estados, que não estão familiarizados, definam novas regras. Mas estes esforços devem ser orientados para a compreensão. Por isso, os estados europeus devem incentivar a criação de organizações islâmicas por parte dos muçulmanos, em vez de nomear pessoas que não estejam directamente relacionadas com o islão. Estas atividades devem ser executadas por organizações da sociedade civil e não por organizações de segurança ou relacionadas com os serviços secretos.

O que devem fazer os muçulmanos…

No contexto do islão europeu, não é uma atitude moral dizer que os muçulmanos fazem a sua parte e criticar apenas os países envolvidos. Se os muçulmanos que vivem no Ocidente têm problemas de educação, económicos e de participação política, intelectual e académica nos tempos que correm, se as taxas de deliquência forem elevadase e se a cultura de trabalho for insuficiente, obviamente que tanto os muçulmanos como as suas organizações têm grandes responsabilidade. Mesmo assim, é preciso assinalar os problemas de representação e de expressão, para eliminar o clima de medo ao trabalhar em cooperação estreita e ao criar relações diretas e abertas com as autoridades de cada país.

O que trará à Europa um islão que perde o seu caráter social?

O que certos segmentos querem obter com um islão europeu, é um islão ausente de todas as exigências sobre a sociedade, a família e sobre as pessoas. No entanto, na Europa o colapso da família, as crianças abandonadas, o incesto, as relações homossexuais e o consumo de drogas, tornaram-se demasiado comuns e não podem ser comparados ao resto do mundo. Em termos de valores sociais, a Europa está a passar por um período em que as pessoas facilmente se perdem e onde as relações legítimas e normais são insuficientes para as pessoas, devido ao alto nível de satisfação económica. Os valores islâmicos podem ser a última fortaleza que ainda não foi ocupada. Por este motivo, um muçulmano que abdica das suas exigências sobre a sociedade, a família e a humanidade, apenas acelerará o colapso da Europa.

Os cristãos e judeus também devem apoiar os muçulmanos

Vimos que tal como os muçulmanos, também os judeus e cristãos não ganhariam nada com processos semelhantes. Penso que também os judeus e cristãos estão preocupados com a erosão dos valores morais e estão incomodados com o colapso moral e com o egoísmo extremo. Da mesma forma, também os secularistas estão perturbados com o completo desaparecimento dos valores humanos. Essencialmente, também eles devem reagir perante o desaparecimento destes valores, que são inerentes ao cristianismo e ao judaísmo.

Os muçulmanos europeus devem ter a sua própria agenda

Os muçulmanos devem sobretudo dominar a sua própria agenda em África, na América, China, Índia, Médio Oriente, e naturalmente na Europa. Como?

Isso será o tema do programa da próxima semana…

Esta foi a opinião sobre este tema do Prof. Dr. Kudret Bulbul, decano da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Yildirim Beyazit em Ancara



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